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Nabiças

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Sábado, ao fim da manhã, regressava da praça com os saco de plástico verde carregados, baboleando-se a custo nas pernas gorduchas, bem comprimidas com meias elásticas, a respiração pesada do esforço. Arrumar as compras incluía arranjar as hortaliças, que eram vendidas em gigantescos molhos verdes, atados a cordel e depois espalhadas em cima de jornais, sobre a mesa de madeira também verde e dissecadas. Lembro-me de não distinguir entre as espécies, mas de detestar particularmente a das folhas pequeninas, que eram retiradas dos talos uma a uma, energicamente, sem escapar nenhuma, nem usar a faca.
Lentamente, qual operação cirúrgica, os talos iam ocupando um lugar à ponta do jornal, enquanto as mãos se enegreciam com tinta e o cheio acre dos vegetais recém-cortados enchia a cozinha, já repleta de cheiros de mercado, a peixe, fruta e chouriço. E enquanto trabalhava ia contando histórias, verídicas e passadas, às vezes repassadas, ilustradas com canções antigas e piadas tontas.
Ultimamente deu em andar comigo, apertando-me as pernas também gorduchas a semana passada, arranjando comigo as nabiças para a sopa da Sofia, esta manhã. Eu fiquei  ali, a separar as folhas do talo e a cheirar o ar acre, em busca do ilusivo aroma do desodorizante Lander, que não regressou. E, de repente, apeteceu-me escrever.